Automóveis proibidos em São Paulo
Acabei de acordar com o som forte da chuva. Deu vontade de ficar na cama, curtindo o barulhinho bom da água batendo lá fora. Fui até a varanda e fiquei olhando a fazendinha que existe e resiste, bem na frente do prédio. Longe da caoticidade do trânsito, ouço a chuva bater nas folhas das árvores. Bonito isso... Nesse feriado, a cidade voltou a ficar mais habitável, com boa parte dos paulistanos nas praias e interior. Fiquei imaginando se as pesssoas que viajaram ficassem onde estavam e a cidade pudesse respirar mais tranquila. Mas elas precisam trabalhar, estudar, pagar as contas, movimentar o capital e as instituições. Então, elas voltam e se aglomeram na metrópole, se acotovelando por aqui. Tentei passear de bicicleta no domingo, na tal "faixa exclusiva de ciclismo" inventada pelo Kassab. Mas choveu e, nessas condições, o passeio foi abortado. Na semana passada, levei minha bike pro Ibirapuera, pra dar uma volta no parque. Rodízio do carro, acabei ilhado no parque e resolvi visitar meu amigo Fernando, que mora perto dali. Encarei o trânsito e percebi que o motorista paulistano não está nem aí com o ciclista. Fui ameaçado algumas vezes, sem falar nos mais grosseiros, que invadiam a faixa de segurança, ocupando o espaço dos pedestres. Ficou claro que o transporte por bicicleta é coisa pra herói, ou louco. Não dá pra encarar o perigo de um atropelamento iminente. Lembrei do meu amigo Arthur Veríssimo, que tentou por algum tempo usar a bike como transporte. Foi atropelado por um ônibus na avenida Brigadeiro Luiz Antônio. Quebrou uns ossos e vendeu a magrela. Na sequência, lembrei da lei antifumo imposta pelo governo estadual. Ela está em vigor e impôs ao fumante que, se quisesse satisfazer sua necessidade, ficasse na calçada, a 10 metros da qualquer abrigo. Inclusive na chuva! É uma questão de saúde pública, afirmaram. Mas é inegável que a poluição ambiental, sonora e visual, provocadas pelo automóvel, é gigantesca. Da mesma forma que proibiram e deixaram sem alternativas o fumante (que incomoda com seu hábito insalubre), podemos sugerir ao governador que proiba o uso de automóveis na cidade. Imagine São Paulo sem os carros se acumulando nas vias públicas... A poluição diminuiria sensivelmente, os motoristas iriam atrás de outro motivo pro estresse, as bicicletas voltariam a rodar nas ruas, as motos não ameaçariam a vida dos pedestres... Tudo isso assim, de repente, e sem alternativas. Uma imposição mesmo! Todos teriam que andar a pé ou de blike, ou de ônibus, ou de metrô. Mas e o direito de andar no seu próprio veículo, como ficaria? Simples, não ficaria. Você, motorista costumaz, viciado, dependente da carro, queimador de gasolina, teria que usar seu carro a 10 quilometros da cidade. As multas seriam iguais as da lei antifumo. Parece muito radical? Mas a saúde dos paulistanos iria melhorar muito. Como diz o José Serra, as pessoas têm que se adaptar e largar velhos hábitos nocivos e prejudiciais. É pro bem delas e dos outros também. Mas e como ficam aqueles que não querem deixar de andar nos seus carros? Pergunte aos fumantes. Eles podem dizer como estão se sentindo. Ouço trovoadas ao longe. Mas é da chuva que tenta afastar a poluição provocada pelos automóveis. Essa lei de restrição ao automóvel não passa de uma alucinação matinal. Podem ligar seus motores e sair por aí, atropelando ciclistas, invadindo calçadas, poluindo a cidade. Fiquem tranquilos, que José Serra adora um motorzão V8. Mas já pensou se não fosse assim? Nessa chuva, ter que se encharcar pra chegar no trabalho, em casa, num hospital... Sei que esse texto escapa à realidade. Mas é só um exercício de tolerância. Tolerância e respeito pela vontade da minoria é muito salutar. Só isso...
Escrito por Thunderbird às 11:12:50
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